sexta-feira, julho 07, 2006

CARTILHA PARA 2010 - por Fabio Chiorino

Anote aí.
Para 2010, queremos nos classificar no sufoco. Vamos ignorar que as Eliminatórias Sul-Americanas são uma baba. Que classifiquemos para a Copa do Mundo da África do Sul só na última partida, jogando em casa, depois de uma vitória suada de 2 x 1 contra a Bolívia ou Venezuela. O melhor que pode acontecer é sairmos daqui do Brasil desacreditados. Todo mundo, povo e imprensa, criticando os selecionados. Deixemos aqui o veterano goleador ou o meia experiente. Que o técnico ainda ignore três, quatro jogadores que são unanimidades em seus clubes europeus. Que o time titular seja superior aos reservas, sem subestimá-los. Quem ficar no banco deve se esforçar sempre, mas não deve pleitear vaga na equipe principal. Que esperem por sua chance, que a mereçam, caso alguém se machuque ou não corresponda dentro de campo. Mas que aguardem sentados, obedecendo a hierarquia e aos comandos do professor, como eles mesmos gostam de chamar o treinador. E, por falar em treinador, que ele seja um ser energético e disciplinador. Não precisa ter lançado livros de como montar uma equipe vencedora, ou como construir uma família feliz em 10 etapas. Deve ser vibrante, que tire o máximo de cada jogador. Entre o erudito e o motivador, ficamos com o segundo. Que seus pupilos olhem para a beirada do gramado num momento difícil da partida e encontrem nele o motivo para se empenharem à enésima potência. Não queremos show de bola. Todos sabem que Copa do Mundo é uma competição acirrada, equilibrada. Não é à toa que lá estão reunidas as principais nações, com seus melhores jogadores. Se a estrela consegue parar a bola embaixo da nuca ou do umbigo, muito que bem. Mas que reserve este jogada para os comerciais de seus patrocinadores vitalícios. Não precisamos de focas e macacos malabaristas. Queremos atletas na mais plena condição física. Sim, atletas. Isso significa dizer que será rejeitado qualquer jogador com IMC (Índice de Massa Corpórea) acima de 25. Não importa seu histórico dentro da seleção. Devemos ser profissionais e respeitar, sobretudo, o que a balança ergométrica nos revela. Jogadores que sofreram contusões recentemente ou acima de 32 anos devem ser analisados com atenção. Se não são titulares em seus clubes, é bem provável que não mereçam o colete na seleção brasileira. Não levaremos amuletos humanos para a Copa. Senhores com mais de 70 anos, sem mais nenhuma função técnica devem ficar em casa. Se aprovarem, que se faça uma homenagem, coloque seu rosto num canto da bandeira. Não importa. Mas, definitivamente, não precisamos de ventríloquos no banco de reservas. Ao lado do treinador, que estejam profissionais competentes, que, talvez, nem precisem de laptops de última geração para passar informações importantes ao líder. Líder. Também deve haver um dentro de campo. Alguém que faça o papel de pai chato, que pegue no pé, que dê bronca nos novatos irresponsáveis e lembre aos mais velhos que conquistas passadas não garantem vitórias futuras. E que determinem, desde já, a volta do quarto compartilhado. Não precisam rezar juntos nem dormir na mesma cama. Mas é lado a lado, dividindo inseguranças e incentivos, que se forma uma equipe unida. A receita é essa. É possível que ela sucumba por diversos fatores. Do outro lado do campo sempre haverá uma outra seleção menos ou mais competitiva. Tem seleção que deseja só fazer um gol na Copa, tem a que almeja conquistar a primeira vitória. Não importa o motivo. Todas lá estão por algum objetivo. E cada um deve, dentro de campo, lutar pelo seu. O importante é que cada partida pareça a última da vida de nossa seleção. Se perdermos, que venha o choro. Nunca aceitaremos a derrota. Mas existem formas diferentes de reagir. Não existe essa de morrer em pé. Que os jogadores se esparramem no chão, lamentando a derrota. Se o lamento e a vontade forem verdadeiros, choraremos juntos. E, se vencermos, que levantemos a taça tão almejada, que o capitão a dedique para o seu bairro ou mulher preferida. Aqui, no Brasil, a sensação é de que o troféu será dedicado a nós. Nós, brasileiros, que respiramos futebol. Ser torcedor é como exercer uma segunda profissão. A vitória sempre será mais importante do que a competição. Nem o fair play é capaz de mudar esta mentalidade. Mas sabemos que o triunfo não é irreversível. Assim, tão importante quanto a conquista, está o desejo de um povo que espera quatro anos para ser representado com honra dento de campo. Definitivamente, não desejamos ir ao aeroporto insultar nossos jogadores. Só queremos luta do começo ao fim. Se perdermos, a lágrima é coletiva; se vencermos, a festa é nacional.